Roman Polanski - O passado o condenará?

O roteiro está pronto e a história de tragédia, triunfo e queda é real. Um menino judeu perde a mãe num campo de concentração e é criado, de favor, por uma família católica. Quando adulto, sua mulher grávida de oito meses é assassinada a punhaladas por fanáticos de uma seita mística. Vira um dos cineastas mais respeitados do mundo e ganha um Oscar. Então se envolve sexualmente com uma menina de 13 anos. Perseguido pela Justiça durante 31 anos, acaba preso, aos 76, por ter drogado e estuprado a garota. A trama daria um belo filme de Roman Polanski. Só que ele não pode dirigir – por ser o personagem principal e por estar na cadeia.
Polanski foi preso em Zurique, onde fora receber um prêmio no festival de cinema local, pela acusação de ter embebedado e estuprado a atriz Samantha Gailey quando ela tinha 13 anos, em 1977. Samantha fazia uma sessão de fotos para um filme na casa do ator Jack Nickolson, em Beverly Hills, quando teria sido atacada por Polanski. Em 1994, Polanski pagou US$ 225 mil a Samantha para encerrar o processo civil. Mas, como em 1978 o juiz se negara a julgar Polanski à revelia, o processo criminal continuou aberto. Em 2008, os advogados de Polanski pediram à Justiça do Estado da Califórnia que abandonasse as acusações. O pedido não foi aceito.
Hoje mãe de três filhos, Samantha ainda afirma que a relação não foi consensual. “Ele não teria aceitado um não como resposta”, disse. Para ela, o episódio foi “aterrorizante”. Ela diz, porém, que muito tempo já se passou para que ele seja preso agora. Polanski sempre disse que ela consentiu e que já não era virgem quando tudo aconteceu. Preso na época das acusações, passou 42 dias fazendo avaliações psicológicas na cadeia. Conquistou o direito de viajar depois dos testes. Ao sair da prisão, foi para Londres e, de lá, para a França.
Há três décadas, a Justiça americana tentava prender Polanski, mas ele evitava pisar em países que mantêm tratado de extradição com os Estados Unidos. Ele não voltou aos Estados Unidos nem mesmo para receber o Oscar de melhor diretor por O pianista, em 2002 – com medo de, além da estatueta, ganhar um par de algemas. Casado e pai de dois filhos, Polanski vinha tentando, sem sucesso, responder ao processo em Paris. Assim que soube que ele estaria na Suíça, a Procuradoria de Los Angeles preparou (pela terceira vez) os trâmites para o pedido de prisão. A polícia invadiu o hotel onde ele estava hospedado e o levou preso. O caso gerou farpas entre França e Suíça, pois Polanski é cidadão francês. O ministro da Cultura, Frederic Miterrand, lamentou a prisão de “alguém que já sofreu tanto”. O governo suíço reagiu. “Não há por que não cumprir um mandado de prisão válido, contra qualquer um”, disse Guido Ballmer, porta-voz do Ministério da Justiça suíço.
Nascido em Paris numa família de judeus poloneses, em 1933, Rajmund Roman Liebling Polanski se mudou ainda criança para a Polônia, país da mãe, Bula. Com a invasão nazista, sua mãe foi levada ao campo de extermínio de Auschwitz, onde morreria. Polanski escapou do gueto de Varsóvia aos 9 anos e virou católico fervoroso, por influência da família que o acolheu. Perderia a fé em 1969, quando mais uma tragédia entrou em sua vida. Sua mulher, a atriz Sharon Tate, foi esfaqueada até a morte em Los Angeles, grávida de oito meses, por fanáticos da seita liderada pelo místico Charles Manson. Em sua autobiografia, Polanski escreveu que, após o crime, passou a considerar a fé “um absurdo”.
Samantha não foi a única mulher a fazer acusações contra Polanski. Em 2004, a revista Vanity Fair publicou uma reportagem em que uma modelo afirmava que, às vésperas do enterro da mulher, Polanski tentou forçá-la a manter relações sexuais com ele dizendo que ela seria “a nova Sharon Tate”. O processo correu em Londres, e o depoimento de Polanski foi por videoconferência, já que, se pisasse em solo britânico, ele poderia ser preso por causa da acusação feita nos Estados Unidos. Polanski foi absolvido por falta de provas. A revista teve de indenizá-lo em cerca de R$ 200 mil por danos morais.
Se o caso realmente aconteceu ou se a modelo mentiu, é certo que muitos já tentaram aparecer à custa de Polanski. O próprio promotor do caso, David Well, recentemente afirmou, em depoimento no documentário Roman Polanski: wanted and desired (algo como “procurado e desejado”), que orientou o juiz na preparação do processo contra Polanski. Depois da prisão, Well reconheceu a sites ingleses que mentira por achar que “a história ficaria melhor”.
Ápice dramático do filme que é a vida do diretor, a prisão da semana passada ainda vai provocar controvérsia. Não faltaram outras vozes influentes no mundo do cinema que se juntaram ao coro dos descontentes puxado pelo governo francês. Entre elas, Woody Allen, Pedro Almodóvar e Martin Scorsese. É inegável a contribuição de Polanski para o cinema. Ele escreveu e dirigiu obras-primas como Repulsa ao sexo, O bebê de Rosemary e O inquilino. Mas nenhum de seus defensores é capaz de explicar, com argumentos sustentáveis, por que alguém merece tratamento especial só por ser famoso e talentoso. Ninguém deve estar acima da lei.
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