Felipe Pradella: culpado ou heroi?
Ninguém saiu ileso. O novo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) prometia transformar a educação e gerar um sistema mais justo e transparente para escolher os alunos mais capazes de frequentar as universidades brasileiras. Em vez disso, tornou-se um festival de trapalhadas que lembra um filme de pastelão. Quem consegue acompanhar a complexa trama que precedeu e se seguiu no vazamento da prova chegará a uma conclusão inescapável: uma quadrilha de amadores atrapalhou a vida de 4,1 milhões de estudantes, revelou a fragilidade do sistema de segurança das provas, convulsionou o calendário educacional brasileiro e trouxe embaraço para as autoridades - tanto aquelas que sonhavam em criar um novo vestibular mais justo quanto os investigadores da polícia cuja missão é simplesmente prender os culpados.
Na revista Época do dia 12 de outubro, um dos indiciados pelo roubo do Enem contou sua versão dos fatos relativos ao vazamento do exame. Felipe Pradella, corretor de imóveis, de 32 anos, pareceu não ter noção da gravidade da situação em que se envolveu. Na entrevista, ele contou que era contratado como conferente, mas não tinha uma função específica. “A gente embalava caixas, conferia mercadoria, retirava pallets, que é onde ficam as provas lacradas”, disse.
Segundo Pradella, tinha aproximadamente 40 pessoas sem função definida e todos tinham acesso à prova. “A gente não tinha um local específico para ficar e para trabalhar. Só na impressão a gente nem passava perto”. O corretor ainda revelou à revista, que havia instruções de segurança da gráfica, “Não podia entrar com celular e bolsa. No dia em que o rapaz contratou a gente, disse: ‘Não pode falar em bares e lanchonetes, não pode divulgar o que vocês estão trabalhando’. Fui saber no segundo ou terceiro dia que era o Enem.” Mesmo com as instruções, Pradella disse que esquecia muitas vezes, e entrava com o celular, e alguma vez chegou até a atender uma ligação dentro da empresa. Assim como ele, os outros colegas de trabalho também atendiam as ligações, já que não tinha ninguém vigiando. A repórter da revista, AnnaAranha, ainda perguntou para o indiciado se faziam os funcionários eram revistados na entrada e na saída, a resposta foi seco e áspera, “Nunca teve.”
Pradella foi questionado sobre como percebeu que a prova poderia ser vazada, e respondeu: “Na hora em que ela chegou na minha mão e contei para o meu amigo, o Gregory (o DJ Gregory Camillo). Ele falou: ‘Como arrumou?’. Eu falei: ‘Foi o moleque que trabalha lá (Felipe Ribeiro) que me deu’. Ele disse: ‘Isso dá o maior furo jornalístico, vamos divulgar’. Eu falei: ‘Se está comigo, com quantas pessoas não está? Vamos fazer uma denúncia’. ‘Vamos, dá até para ganhar um dinheiro’.” O corretor revelou que recebeu a prova quando já estava indo embora do serviço do Felipe Ribeiro, contou ao amigo Gregory que se interessou ao descobrir que ele tinha uma prova do Enem na bolsa. Foi então que Gregory decidiu pegar a prova e fazer contatos. No dia seguinte, ele pegou Pradella e levou à pizzaria de outro amigo (Luciano Rodrigues), com quem contariam com a ajuda. Quando Luciano viu, falou: “O negócio é sério, dá para vocês fazerem um furo legal”. Segundo Pradella, o dono da pizzaria entrou em contato com muitas pessoas, “Ele ligou para um monte de gente. Acho que já ligou para a Renata (Cafardo, repórter de O Estado de S. Paulo, jornal que divulgou o vazamento da prova). Ele anotou um monte de telefones e deu na mão do Gregory”.
Questionado sobre quando foi o contato com a imprensa, Pradella revelou, “Eu estava na casa da minha namorada, ele ligou e disse: ‘Vem para cá, a gente precisa conversar’. Já tinha entrevista com um fulano. A gente encontrou três pessoas, até um rapaz da Globo (Editora Globo, um repórter da revista Época). O primeiro contato foi com o rapaz da Record. Eu cheguei e eles (Gregory e o repórter) já estavam conversando. O cara estava falando: ‘R$ 500 mil é um negócio interessante, interessa para mim, vou entrar em contato’. O Gregory deu um telefone para ele.”
Depois de conversas com repórteres e do jornal O Estado de S. Paulo, Pradella voltou para casa e, na entrevista, revelou como foi a reação dele quando saiu a primeira reportagem, “Acordei cedo na minha namorada, 8 horas, passou no jornal, na TV. Eu estava tomando café, quase engoli o copo. ‘Vazou informação...’ ‘Dois rapazes...’ Quase morri do coração. Primeiro, fiquei revoltado, passou na TV que melou o Enem e eu vi minha foto. Pensei: ‘Meu Deus, eles falaram que iam comprar uma informação, não entendi’. Liguei para o Gregory e falei: ‘Meu, você viu o que ela fez?’. E ele disse: ‘Depois te ligo não posso falar no telefone’. Desligou. Liguei à tarde, ele não atendeu mais.
A intenção de Pradella, poderia ser boa, dependendo do ponto de vista. “Consegui o que queria, delatar o fato ocorrido. Mas eu queria ter ganhado o mérito. O que apareceu foi o contrário. Queria ter aparecido como o cara que fez uma denúncia, que salvou um monte de alunos.”
Em resposta à pergunta da repórter, se ele achou que estava ajudando, Pradella afirmou, “Achei não, eu ajudei os alunos. Se fosse depois da prova, do que ia adiantar? Um monte de gente ia passar por uma fraude. Mas não foi esse mérito que eu ganhei”.
Realmente o crédito não foi concedido a ele, porém se eles não tivessem feito isso, teriam outras pessoas conseguido roubar um exemplar da prova para fazer uma ‘boa ação’ provando que havia possibilidade de fraude?
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