Você viu este homem?
Foi por medo de avião que Belchior segurou pela primeira vez na mão de uma musa. A pueril descrição da cena dá início a um dos maiores sucessos do cantor e compositor nascido em Sobral, no Ceará, em 1946. Na música, que cita um conhecido refrão dos Beatles, ele não revela se aquele toque o encorajou a novos voos. Mas a vida mostrou que Belchior venceu o medo de avião. Ele viveu anos nas proximidades do aeroporto de Congonhas, em São Paulo. E foi na garagem do aeroporto que estacionou um de seus carros, em outubro de 2008. Até a quinta-feira da semana passada, o carro continuava lá, e o mistério, sem resposta: onde andará Belchior?
A gerência do estacionamento do aeroporto afirma ter enviado vários telegramas avisando ao proprietário que a conta já soma mais de R$ 18 mil. Todas as correspondências voltaram. Não havia ninguém para assinar o recebimento. Outro carro do cantor está desde 2008 no estacionamento ao lado de um hotel em São Paulo onde Belchior morou por uns tempos – e de onde sumiu em 30 de setembro do ano passado. A conta do hotel, que passa de R$ 12 mil, também não foi paga. Há outra dívida, de R$ 25 mil, relativa à pensão alimentícia que ele deveria pagar à ex-mulher Ângela Margareth Henman. Por causa dela, a Justiça pode expedir um mandado de prisão.
Várias pessoas próximas a Belchior disseram ao programa Fantástico, da TV Globo, não ter notícias dele há mais de um ano. Nem a irmã, nem o empresário, nem o advogado que representa a ex-mulher do cantor sabem onde ele está. Ao mesmo tempo que amigos, fãs e parentes se preocupam com seu paradeiro, a revelação das dívidas deixadas por Belchior deu início a uma corrente de piadas na internet. Uns dizem que agora Belchior faz jus a uma de suas letras mais famosas – é apenas “um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes”. Um site chegou a fazer uma fotomontagem em que o cantor aparece na ilha do seriado de TV Lost. A especulação foi além das piadinhas. A notícia do sumiço chegou ao jornal britânico The Guardian, que comparou a história do cearense à do guitarrista Ritchie Edwards, da banda Manic Street Preachers. Ele deixou o carro perto de uma estação de trem do País de Gales e nunca mais foi visto.
Ao contrário de Edwards, porém, aparições belchiorianas têm sido registradas em toda parte, até em Colônia do Sacramento, no Uruguai. Um grupo de motociclistas, o Rondônia Road, fotografou o encontro com o cantor por lá no dia 18 de junho. A foto em que ele aparece está no blog do grupo, junto com um post assinado por “Anieline”. Um jornalista cearense diz que entrevistou Belchior e que ele estaria traduzindo A divina comédia, obra-prima do italiano Dante Alighieri (1265-1321). No final da semana passada, um sobrinho do cantor, Pedro Belchior, tentou pôr fim à especulação em uma entrevista a uma rádio de Fortaleza. Segundo ele, o tio estaria numa praia em Itapipoca, no Ceará. A versão não foi confirmada por outros parentes. Mesmo que seja verdade, agora que a máquina de boatos está em ação o próprio Belchior terá dificuldade em provar seu paradeiro.
Ainda que seu sucesso como compositor tenha se limitado a uma pequena lista de canções, a obra de Belchior tem vocação para a perenidade. “Velha roupa colorida” e “Como nossos pais”, gravadas por Elis Regina, “Medo de avião” e “Apenas um rapaz latino-americano”, por ele mesmo, permanecem com o status de clássicas. Belchior nunca mais compôs canções como aquelas, mas isso não parece ter sido ruim. Mesmo vivendo da fama do passado, ele soube olhar para a frente. No começo dos anos 80, ousou ao produzir discos experimentais e se tornar sócio de uma pequena gravadora que lançava novos artistas.
O autor deste texto não vê Belchior faz tempo – falou com ele pela última vez em 1995. Conversamos sobre um grupo que despontava, os Mamonas Assassinas, que satirizava sua voz fanhosa e seus versos intrincados (em Uma arlinda mulher, o cantor Dinho falava em “um paradoxo do pretérito imperfeito/Complexo com a teoria da relatividade”). Belchior disse que não se importava com a sátira e que ficara comovido por fazer parte das referências musicais de uma geração tão distante da sua. Paradoxalmente, ao desaparecer ele pode se tornar um pouco mais conhecido pelos novos fãs de música.
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