O céu não é o limite
É um fenômeno conhecido que em momentos de crise econômica a indústria da fantasia prolifera. Tanto que as bilheterias dos cinemas engordaram cerca de 30% neste ano nos Estados Unidos. Up – Altas Aventuras, o décimo longa-metragem do cultuado estúdio de animação Pixar, é provavelmente a melhor ilustração para esse fenômeno. Seu maior ícone é uma casa voadora, o oposto das casas cujo valor afundou na crise imobiliária (origem da devastação financeira). O desenho já arrecadou mais de US$ 400 milhões desde sua estreia, em maio.
Mas Up não é apenas um filme oportuno. É, sob vários aspectos, a melhor animação da Pixar. E olha que a concorrência é dura: estamos falando de Toy story (1995), Monstros S.A. (2001), Procurando Nemo (2003), Os Incríveis (2004), Carros (2006), Wall-E (2008). Não estamos falando da natural evolução técnica, uma constante do mundo animado. Há isso também, mas não é o principal. Sim, a Pixar finalmente se rendeu ao 3-D haverá salas com a opção para quem quiser ver o filme com óculos. Bem mais importante que as imagens que saltam da tela, porém, é a psicologia tridimensional dos principais personagens, uma característica que os desenhos começaram a adquirir para agradar aos pais das crianças, aprimorada agora a um limite que nos faz ficar em dúvida: Up é um filme para crianças que os adultos apreciam ou um filme para adultos de que as crianças também gostam?
A lista de influências claras na trama mostra esse “caminho do meio”, seguido pelo diretor, Pete Docter (o mesmo de Monstros S.A. ), e por seu codiretor, Bob Peterson. A mais clara é o fantástico O castelo animado, do japonês Hayao Miyazaki (que trabalhou com a Disney, associada da Pixar). No Castelo, uma casa que anda ajuda a mocinha a se livrar de um feitiço que a transformou em velha. Em Up, uma casa que voa ajuda um velhinho a realizar os sonhos perdidos da juventude. Também é óbvia a referência a O mágico de Oz, outro filme em que a casa voa, levando a menina Dorothy a viver aventuras e descobrir o valor da amizade. Mas Docter cita outras influências, mais “adultas”: Casablanca, um clássico sobre um herói sem lar num mundo em guerra, e O agente da estação, um filme sobre um anão que vive solitário até encontrar amigos improváveis.
Up é magistralmente construído sobre pares de opostos. Há o quadrado que caracteriza Carl Fredricksen, o viúvo ranzinza, e o redondo que domina a figura de Russell, o escoteiro que se prega a ele como um carrapato e vai acompanhá-lo em suas aventuras. Há o novo e o velho, o tradicional (a rabugice de Carl) e o moderno (um menino dependente de seus gadgets), a mágica (um cachorro que fala) e a explicação da mágica (uma coleira que “traduz” o pensamento do cão).
De início, vemos Carl ainda menino, entusiasmado com seu ídolo, Charles Muntz, um aeronauta e desbravador dono do balão dirigível Spirit of Adventure (Espírito de Aventura). Ao conhecer a menina Ellie, cujo maior desejo é também vi-ajar para os lugares selvagens visitados por Charles, o tímido Carl quase não consegue falar, tão estupefato e encantado fica com a determinação enérgica da garota. Mais adiante, Ellie e Carl se casam, e, em poucas cenas, o espectador vê um resumo esplendidamente costurado e sem diálogos da vida do casal. Apesar de construída com muito afeto, a trajetória dos dois sofre todo tipo de privação: desde o filho que não vem até a impossibilidade econômica de realizar o grande desejo de conhecer cachoeiras da América do Sul.
Até que Ellie morre. Carl se tranca em sua vida melancólica numa casa abarrotada de lembranças. Mas o progresso vem para arrancá-lo de lá. Toda a vizinhança já se transformou num canteiro de obras, e um empresário imobiliário cobiça o terreno onde ele mora. Pressionado, ameaçado de parar num asilo, Carl toma o caminho oposto. No passado, ele havia sido vendedor de balões. Agora, amarra mais de 20 mil balões coloridos na casa – e a faz levitar.
Seu plano era ir embora sozinho, mas sem perceber acaba levando Russell, um menino tagarela de formas redondas e feição asiática que estava em sua varanda. Russell é um escoteiro mirim cujo objetivo irredutível é ajudar um idoso para conseguir a condecoração de Explorador da Vida Selvagem que lhe falta – e, quem sabe assim, ganhar a atenção do pai ausente. Outros personagens surgem e os acompanham, sempre carregando consigo uma obstinação própria, como o exótico pássaro furta-cor Kevin (que deseja reencontrar seus filhotes) e o cão gorducho Dug (à procura de um dono que o ame).
Carl também encontra seu herói de infância, o aeronauta Muntz. Ao final, descobre-se que o anti-herói ranzinza e quadrado é mais heroico que qualquer ídolo mítico – uma conclusão surpreendente, para um filme que leva também a assinatura da Disney. Em inglês, o título do filme é apenas Up, que significa “para cima”. Dificilmente haveria um título melhor.
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